O vício da perfeição: uma neurose coletiva
- Gabriela Azevedo
- 28 de mai.
- 2 min de leitura
Atualizado: 29 de mai.
Nunca nos vimos tanto. Nunca nos enxergamos tão pouco.
Essa semana tivemos o falecimento de mais duas mulheres vítimas de procedimentos estéticos mal executados e, na anterior, a morte de um jovem fisiculturista. Essas mortes retomam uma discussão que já esteve em pauta diversas vezes: até que ponto o culto ao corpo é uma expressão de saúde?
Nunca houve tanta exposição do corpo e, ao mesmo tempo, tanta desconexão emocional. O corpo que é postado é polido, filtrado, hipertrofiado, calculado, monitorado, mas esvaziado de experiência humana real. Não pode haver marcas do tempo, fragilidade, cansaço, ambiguidade.

Busca-se o domínio absoluto sobre o corpo: controle da aparência, da alimentação, do sono, dos hormônios, da gordura, da dor. Não há mais espaço para o limite e para a vulnerabilidade, o fracasso precisa ser escondido e o sofrimento, editado. A pessoa passa a vigiar o próprio corpo como um guarda vigia um prisioneiro. O corpo vira performance e sucesso.
Essa dinâmica é ainda deliberadamente alimentada pela economia. A insegurança corporal movimenta mercados bilionários de suplementos, hormônios, procedimentos estéticos, cirurgias, cosméticos, academias, vestuário e aplicativos. E essa engrenagem só funciona enquanto as pessoas se sentem insuficientes. O sistema não vende soluções; vende a promessa contínua de melhora, garantindo que a chegada nunca aconteça. Quanto mais distante o corpo real estiver do corpo ideal, mais lucrativo o mercado se torna.
Então, a crítica ao culto ao corpo não é uma crítica ao cuidado físico, ao esporte ou à estética, e sim ao corpo que deixa de ser vivido e passa a ser apenas administrado.
Riscos emocionais
O esvaziamento emocional acompanha cada passo dessa obsessão estética. Um corpo que não pode mudar, que não pode envelhecer, que não pode ter gordura, que não pode ter rugas, que não pode relaxar, é um corpo estéril, tratado como um objeto a ser moldado, pesado e medido. Mas esquecemos, como observou a analista junguiana Marion Woodman, que a perfeição é estática, fria e morta.
Woodman dedicou décadas a compreender a relação entre corpo e o emocional, e identificou no perfeccionismo não uma virtude, mas uma forma de dissociação, uma fuga da vida real, com toda a sua imperfeição e movimento. Perseguir um corpo "sem falhas" é, nesse sentido, perseguir algo que se aproxima mais da morte do que da vitalidade.
Quanto mais a identidade é baseada na imagem, no reconhecimento externo, maior a dificuldade de sustentar vínculos profundos, ambivalências e processos internos reais, que também envolvem nossas sombras, nossas contradições e nossas fraquezas.
A cura para a neurose coletiva
As mortes causadas por práticas corporais extremas frequentemente produzem uma reação de choque coletivo por alguns dias, mas rapidamente a lógica da hiperperformance retorna. Isso porque vivemos uma cultura inteira que exalta excesso, produtividade e aparência.
Precisamos urgentemente buscar a cura para esta neurose coletiva. E ela não está no abandono do corpo, mas no resgate do corpo habitado.
Um corpo vivo não é perfeito. É humano.
Gabriela Azevedo é psicóloga formada pela PUC-SP, mestre pela Faculdade de Medicina da USP, atua clinicamente atendendo adultos, jovens e adolescentes.



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